O Incerto Ainda é Mais Interessante? Do Mapa Amassado no Bolso ao Legado no Strava
Mais cedo, pensei: quando a gente não sabia onde a estrada “daria”, o incerto parecia ser mais interessante?
Lembro-me dos dias em que cada pedalada era um mergulho no desconhecido. Sem GPS, sem rotas pré-definidas no Strava, apenas o mapa amassado no bolso, impresso do Google Maps no dia anterior. A intuição era quase como bússola, mas, confesso, não tão certeira…rs.

As estradas se revelavam a cada curva, e a descoberta era parte intrínseca da aventura. Havia um charme quase idílico em se perder para, então, se encontrar. Havia algo de desafiador nisso. Íamos até certo ponto hoje, geralmente era o cansaço que ditava a quilometragem que a exploração podia ter. No próximo pedal, já sabíamos: até ali sabemos ir e voltar. E, claro, lançávamos mão de um aprendizado humano ancestral: perguntar para um morador onde essa estrada vai dar… rs.
Hoje, a tecnologia nos guia com precisão milimétrica, traça nossos caminhos e registra cada esforço. As facilidades são inegáveis, e a segurança de saber onde estamos é um conforto bem-vindo. Mas, por mais que os algoritmos nos apontem a direção, a essência da jornada permanece intocada. O vento no rosto não mudou, o suor que escorre tem o mesmo sabor, a paisagem que se transforma e a superação de cada subida – esses são os elixires que continuam a nos mover.
Cruzei o Deserto do Atacama assim, pedalei de Cusco até Machu Picchu assim, guiado por rotas, mas não motivado por elas, entende?

Já fui daqui de casa até a divisa de Minas com o Espírito Santo na “unha”, literalmente mirando cidades que deviam ter uma sequência, do contrário eu havia errado a rota.
Também já fui daqui até Arraial D’Ajuda sozinho e dormindo no mato, a rota toda traçada pelo Strava e, juro, zero problemas. O mesmo vale para o resgate da Rota Imperial, saindo de Vitória, capital do Espírito Santo, até Ouro Preto em Minas Gerais.
Essas duas últimas já na era das facilidades e do GPS com a rota do Strava. Mas e daí? Juro, foi massa demais e felizmente registrei em documentários que hoje estão no canal, inspiram pessoas e motivam mais gente. Como sei disso? Sei, pois não existe uma semana que pelo menos uma ou duas pessoas não me peçam as rotas, por isso.

Hoje as pessoas pedalam mais, e mais pessoas pedalam. Então, o que seria o melhor dos mundos? Acho que hoje tudo está mais acessível e por isso mais pessoas podem seguir rotas criadas há mais de 25 ou até 30 anos.
Me orgulho demais pelo reconhecimento às vezes… “a primeira pessoa a cruzar o Pico do Itapocoçu” pedalando e descobrindo onde sair do outro lado… kkkk
Dei nome a montanhas e hoje elas são segmento do Strava. Estou falando dessas coisas que só têm valor em resenhas de pedal… kkkkkk.
Não importa se o caminho é traçado por satélites ou pela alma aventureira; a estrada ainda nos chama, e o encanto de pedalar, de explorar e de sentir a liberdade sobre duas rodas, esse jamais se perde. A aventura, afinal, não está no destino, mas em cada giro do pedal que nos leva até lá.
