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Rumo aos Vulcões: Meu Desafio na Across Andes 2026

A bicicleta sempre foi minha forma favorita de explorar o mundo. Ela me levou por trilhas improváveis, montanhas e estradas que nem aparecem nos mapas. Mas em novembro de 2026, pretendo enfrentar algo diferente de tudo que já fiz: 800 quilômetros atravessando a Cordilheira dos Andes chilena, aos pés de oito vulcões ativos. Across Andes 2026 - Volcano Edition, uma prova de ultraciclismo onde o cronômetro nunca para.

Ainda não estou inscrito oficialmente, mas minha mente e meu coração já olha nessa direção, só falta preparar o corpo agora, pois gostaria de ir para andar rápido.

O Que é a Across Andes?

A Across Andes é o primeiro evento de ultraciclismo do Chile e um dos desafios de gravel mais respeitados do Hemisfério Sul.

Não é uma corrida por etapas com equipes de apoio e massagistas esperando no final do dia. É o oposto disso: uma prova autossuficiente, onde você está sozinho com sua bicicleta, sua estratégia e seus limites.

Do momento da largada até cruzar a linha de chegada, o relógio não para. Você decide quando pedalar, quando comer, quando (e se) dormir. A única regra é: nada de ajuda externa. Tudo o que você precisa está nas suas bolsas de guidão, quadro e selim, ou nos poucos mercadinhos e hospedagens que aparecem pelo caminho.

A edição de 2026 tem um nome sugestivo: Volcano Edition. A rota foi desenhada para contornar oito gigantes vulcânicos da região de Araucanía — Villarrica, Quetrupillán, Sollipulli, Llaima, Sierra Nevada, Lonquimay, Tolhuaca e Lanín — atravessando florestas de araucárias milenares, campos de lava solidificada e lagos de água cristalina que refletem os picos nevados.

São 800 km de distância e 12.000 metros de ganho de elevação acumulado. O tempo limite é de 130 horas — pouco mais de cinco dias. Isso significa pedalar uma média de 147 km por dia, com mais de 2.200 metros de subida diária, em terreno que é 70% cascalho vulcânico e 30% asfalto.

Por que eu estou fazendo isso?

Essa é a pergunta que todo ciclista de ultradistância ouve. E a resposta nunca é simples.

Até hoje, ainda considero a Caminhos de Rosa a prova de ultraciclismo mais dura do mundo. Nas minhas duas participações experimentei sensações diferentes. Terminei todos, e 2026 volto para ganhar novamente.

Parte de mim quer testar até onde consigo ir — física e mentalmente. Sem duvidas a Across Andes seria a prova mais longa da minha vida. Mais longa até que cicloviagens que já fiz.

Outra parte quer estar naqueles lugares remotos, onde a civilização se dissolve e sobra só você, a montanha e o silêncio da sua mente. E tem também a pura curiosidade de saber que mais uma vez a bike me levaria por lugares onde a “minha criança” jamais sonhou, isso é lindo. Aquele garotinho que aprendeu a pedalar sozinho aos 5 anos nunca imaginou atravessar um dos cenários lindos do planeta.

A Across Andes não é sobre vencer. É sobre atravessar e chegar do outro lado transformado.

Um novo documentário sobre a Across Andes

Eu quero trazer para vocês todas as emoções, dificuldades e alegrias que vou viver nisto. Como sempre faço, a expectativa é criar um belo documentário sobre a Across Andes.

Dessa vez pensei em um webdoc no lugar de uma websérie, acho que para o tipo de evento isso é mais envolvente e imersivo. Como não é uma prova por etapas, não vejo sentido em dividir também a história vivida.

Vai ser demais, e não paro de pensar nisso. Já volto ao chile esse ano mais duas vezes, então, preciso desde já acertar minha logística e deixar tudo afinado.

A Edição de 2025: Um Marco Histórico

Antes de olhar para frente, vale mencionar o que aconteceu em 2025. A prova foi realizada em Coyhaique, na Patagônia chilena, conhecida por seus ventos punitivos e clima imprevisível. Os ciclistas enfrentaram rajadas de vento acima de 48 km/h, chuva fria nos fiordes e variações bruscas de temperatura.

Mas o grande destaque foi a participação feminina recorde: 54 mulheres largaram, e 53 terminaram. Isso foi resultado da iniciativa “More Women More Adventure”, que reservou vagas exclusivas para mulheres e abriu inscrições antecipadas. A vencedora da categoria solo feminina foi Becca, após uma batalha de 800 km que testou tanto o corpo quanto a mente.

É inspirador ver um evento de ultraciclismo priorizando diversidade e acesso. E faz com que a pressão de participar seja ainda maior — no bom sentido.

Como estou me preparando para a Across Andes 2026?

Treinar para um evento como esse não é simplesmente pedalar mais. É aprender a funcionar sob privação de sono, manter a lucidez mental quando o corpo está gritando para parar, e acostumar o organismo a digerir calorias em movimento por dias seguidos.

Minha estratégia de preparação inclui:

Equipamento: Estou montando minha gravel com pneus largos (mínimo 40mm) para lidar com o cascalho vulcânico afiado, peguei algo exatamente assim na Atacama Spirits, sei como é.

Uma transmissão com relações moderadas, quero usar minha boa passada no plano, mas não posso me penalizar nas subidas intermináveis. A autonomia elétrica é escassa nas áreas remotas da Cordilheira, então vou com meus equipamentos que mais possuem duração de bateria.

Treinos de resistência: Pedalar por longas distâncias não é novidade, mas agora estou focando em back-to-backs — dias consecutivos de volume alto com pouco descanso. O corpo precisa aprender a se recuperar enquanto pedala. Mas isso não é frequente, não se canse antes da hora, pois o corpo sente.

Simulação de autossuficiência: Já vou treinar como nos bikepackings, carregado, com todas as bolsas cheias. Preciso sentir o peso, a aerodinâmica alterada, a forma como a bicicleta responde nas subidas técnicas. E estou testando todas as minhas refeições em movimento — nada de surpresas gastrointestinais na hora H.

Mental: Talvez o treino mais difícil. Ultraciclismo é 90% cabeça. Eu vivi bem isso na Brasil Ride. Já voltei a praticar meditação e estou estudando estratégias de gerenciamento de sono e motivação usadas por atletas de ultradistância.

Logística: Temuco, Pucón e a Base Camp

A prova tem base em Pucón, uma pequena cidade turística aos pés do vulcão Villarrica. Para chegar lá, vou voar para Temuco e pegar um transfer compartilhado (a opção mais prática para quem viaja com bicicleta).

A inscrição custa USD $600 para categoria solo e inclui rastreador GPS, plataforma de live tracking, kit de finisher e a festa de encerramento. Hospedagem, traslados e seguro saúde ficam por minha conta.

Eu vou em busca de apoio novamente, vender camisas temáticas do evento tem me ajudado de muito. Arrecado o valor para a viagem sem precisar pedir doações. Os maus inscritos me ajudam e de quebra “ganham” um camisa de qualidade superior a um preço baixo, já que meu objetivo não é lucro. Todos ficam felizes!

As inscrições abrem de 15 de dezembro de 2025 a 31 de janeiro de 2026, e as vagas são limitadas a 300 ciclistas. É um processo seletivo — e conseguir minha vaga foi o primeiro pequeno milagre dessa jornada.

O que vem pela frente

Entre agora e novembro de 2026, vou compartilhar aqui no Cara de Barro (se conseguir confirmar minha participação… :)) tudo sobre essa preparação: os treinos, os erros, as dúvidas, as escolhas de equipamento, as estratégias de nutrição e as crises existenciais que, com certeza, vão aparecer.

A Across Andes não é só um evento. É uma odisseia. E eu quero que vocês venham comigo nessa.

Se você já fez ultraciclismo, se está pensando em fazer, ou se simplesmente acha que eu enlouqueci de vez — deixa um comentário. Vou precisar de toda a energia possível.

Nos vemos na Cordilheira?

📍 Across Andes 2026 - Volcano Edition 📅 22 a 27 de Novembro de 2026 📏 800 km | 12.000m D+ ⏱️ Tempo limite: 130 horas 🚴 Categoria: Solo Self-Supported

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Um pouco cansado disso... Não das histórias, da vivência e do esporte. Mas do que o mercado se tornou. Sigo firme em meu proposito de "Criar Histórias e Experiências Positivas com a Bike" como um ciclista, escritor e desgourmetizador de pedal.