Geral

Caveira Imperial - Relato de um pedal Épico com 205km

O ser humano nasce com um poder fantástico, a capacidade de desbravar, romper barreiras e ir mais longe. Essa enorme vontade de conhecer, aliada a curiosidade e uma irracional negativa do medo, se não dizer até mesmo desprezo pelos riscos impulsionou a humanidade ao desconhecido.

Esse traço nos permeia e segue em nosso DNA desde antes da era dos descobrimentos com as grandes navegações de Carpine, Marco Pólo e Colombo, mais adiante ao espaço com a cadela Laika (ops, essa não era humana), o soviético Yuri Gagarin e Armstrong (Niel, não o Lance… rs). Ainda poderíamos citar os irmãos Villas Bôas, Jacques Cousteau ou João Garcia (escalou o Everest na unha) assim como tantos outros bravos.

Caveira Imperial - Relato de um pedal Épico com 205km

Estamos longe de querer igualar nossos feitos aos deles, ainda mais vivendo na época da comunicação digital, GPS, aplicativos de celular, Google Earth e familiares com Thule no teto do carro… rs

Porém, parte da motivação é a mesma; conhecer e ir além, testar os limites físicos e psicológicos.

Acho que todos bikers tem o desejo de fazer um grande pedal, um pedal épico e desafiador, daqueles em que não se sabe ao certo a hora em que vai chegar e mesmo se ainda haverá luz do dia ou pernas para completá-lo.

Relato de um pedal Épico

Difícil acreditar que algo memorável possa nascer de um pensamento como esses, mas foi assim que o Renato Guberman começou a traçar uma rota pelo Google Earth, um misto inicial de percursos de treinos, com alguns pedais de passeio e relatos de amigos. O resto foi vindo, traçando pontos pelo mapa e buscando informações pela internet e com conhecidos. Ao todo, foram quase três meses junto da Bruna riscando um traçado e planejando.

Quando ele me apresentou o arquivo com o track pensei: Wowww, não da tempo de fazer em um dia. E essa altimetria insana? São mais de 4000 metros de acumulada e subiremos a quase 1000 metros do nível do mar. Não rola, TÔ FORA!

Garoto bom de conversa

Ai, ai, com a lábia de todo sonhador ele foi me dobrando e enfim topei a empreitada. Um evento foi criado no Facebook e quando vimos outros amigos topando, ficamos mais animados ainda. Simbora brutalizar esse trem sem fingimento!

Uma ajustadinha no percurso aqui e ali, revisão na bike, aumentando um pouco o volume dos treinos umas duas semanas antes e nos dois dias anteriores muito liquido e carboidratos pra dentro.

Véspera do pedal, a ansiedade mata, acho que só peguei no sono por volta das duas da madruga, aconteceu o mesmo no Pedal Desafio dos Entas, difícil dormir com a excitação na cabeça.

Agora não tem mais jeito. Despertador tocou

Despertador toca 04:00 da matina, 09 de fevereiro de 2013, já tinha deixado toda tralha e a bike prontinha, só tomar café e ir me encontrar com o Renatinho e a Bruna Sanches em Jardim Camburi. Dos mais de 20 riders que confirmaram presença no desafio, somente nos três estávamos presentes.

Não que os demais parceiros não tivessem condições ou disposição, pelo contrario, só casca grossa e caveiras foram convidados, tivemos esse cuidado. Acredito que o feriadão de Carnaval aliado aos compromissos familiares deram outro foco a galera.

Quem treina muito sabe o tempo que é dedicado ao esporte e cada momento que temos para ficar com os entes queridos deve ser maximizado. Família em primeiro lugar, sempre! Eu mesmo precisei fazer alguns acordos com a patroa para estar presente… rs

Tá na Hora de partir. Relato de um pedal

Partida, 05:25 da matina tudo ok, e pronto pro pedal. Serjão, biker old school e mega gente boa, pai do Renato (ninguém é perfeito…rs) se despede de nos com um afável “bom pedal e boa sorte”, seguido de um sonoro “cêis são doido”. rs

Além do visual, o bom de iniciar de frente pro mar, é a certeza de estar em zero de altitude, assim, aferir esse fator fica muito mais fácil. Com as ruas calmas e tranqüilas o pedal fluiu muito bem passando pelo Centro de Vitória, Cariacica e entrada de Viana, onde o caldo de cana é de lei. Neste trecho destaque para um motorista numa Van que espontaneamente nos escoltou como um carro de apoio da Estação Pedro Nolasco até Alto Lage, depois descobri que era o pai do Tarcisio Machado, um ciclista amigo da turma.

Chegando em Viana

A partir de Viana começa a estrada de terra, habitat das mountain bikes e então 53.8 km de subidas pelas serras Capixabas. Isso mesmo, você não leu errado. Foram cinquenta e três quilômetros e oitocentos e poucos metros subindo quase que ininterruptamente. Até esse momento totalizaríamos um ganho de altitude de 1.843m a uma inclinação “média” de quase 21%. A primeira ladeira com 5.6 km de extensão e 449 metros em relação ao nível do mar. A segunda nem sei se era uma ladeira, prefiro chamar aquilo de morro, com 9.53km de subidas com inclinação máxima chegando a 23%.

No começo das subidas eu disse: Vocês dois, me dêem algumas dicas pra subir melhor, ok? Renatinho me responde: Hoje você vai ter um intensivão… kkkkkkk E tinha razão, bota intensivão nisso! Uma verdadeira aula de mountain bike. Impressionante ver o Renatinho subir a maioria dos morros com a coroa do meio, girando leve e transitado facilmente entre eu e a Bruna.

Faz parecer tão fácil escalar essas montanhas, mas também mostra o abismo que separa um atleta de ponta com biker mediano feito eu. Também fiquei de cara com a cadência constante e a eficiência da pedalada da Bruna, totalmente adaptada a este tipo de terreno e zerando uma subida após a outra, e mesmo não estando adaptada ao novo quadro da bike ela tira de letra esses desafios. Acho que nesse ritmo 2013 é dela!

A bela Cascata do Galo

Enfim a Cascata do Galo, chegamos ali após pedalar 62.2km e 06h57min34seg depois da partida. Pausa pro descanso, um Oasis, delicia a água geladinha, regenera os músculos e refresca o corpo que sofria com o calor, pena era a farofada e o carro com porta mala cheio de som tocando musicas de gosto duvidoso. Pra que som alto num lugar como aquele?

Após 95 km girando, atingimos a maior altitude em relação ao nível do mar, batemos em 997 metros, gastamos 09h42min32seg para atingir esse ponto. Daí constatei - “nunca subi tanto pedalando”. Tivemos que dar risada, pois era o que restava. O visual é incrível e indescritível. Moramos num estado abençoado e com paisagens que poucos conhecem.

Dava pra ter feito tudo isso mais rápido, mas tivemos contra tempo com o pneu traseiro da minha bike, que não furou, mas também não pegava pressão ideal. As bombas que levamos não enchiam bem e pedalei com o pneu bem murcho, sensação de estar puxando um fusca.

Suspensão proshock me deixando na mão

A suspensão Proshock One Air TSi 29er novamente me deixa na mão. Já desisti dela, fiz metade do pedal com ela travada, ombros e pulsos doem até agora. Em compensação a bike Soul Sl900 se comporta muito bem e não me deixa na mão, super confiável. Um abraço pro Sandro da Sempre Bike que me da uma moral.

Terminar a sucessiva sequência de morros não seria sinônimo de moleza, logo perceberíamos isso. De Domingos Martins para Santa Maria de Jetiba pedalamos mais 60 km, pegamos algumas subidas medianas e uns pedacinhos de asfalto.

Em Algum lugar perto de Melgaço encontramos uma lanchonete arrumadinha, ao lado de uma mercearia típica da região. Ali comemos o que tinha, salgados. Optamos por bolinhos de Aipim mesmo, melhorzinho que tava tendo.

Essa também foi nossa maior parada, descanso, hidratação, lubrificada na relação e banheiro descente, porém indiscreto. Essa parte eu abafo o caso… rsrs

Rumo a Santa Teresa

De Santa Maria para Santa Teresa a estrada é um pouco monótona e com alguns veículos de passeio e caminhões transportando produtos agrícolas da região. Muita poeira fina e pouca sombra. Alguns buraquinhos chatos já começam a incomodar muito.

O pedal já ia ficando pesado, nem tanto nas pernas, mas ombros, pulsos e lombar. Num posto de gasolina nos alimentamos novamente, hidratação e uma calibradinha na suspa e pneu traseiro novamente. É engraçada a reação das pessoas perguntando de onde estávamos vindo e para onde iríamos.

Umas duas vezes ouvimos “mas vocês vão dormir por aqui, né?” rsrs

Chegar a Santa Teresa ainda com luz foi revigorante psicologicamente, porém algo tão bobo e simples incomodava muito, mas muito mesmo. As assaduras impediam a pedalada redonda, isso é algo importantíssimo a se levar em consideração, existem produtos baratos e bem efetivos para evitar esse incomodo.

Isso afetou a mim e a Bruna. Em pedais longos, passarei a considerar um tubinho de hipoglós, assim como levo filtro solar. Pode ser engraçado falando e lendo, mas na hora é bem ruim.

Lembrei das histórias dos grandes exércitos que caiam por não cuidar dos pés nas viagens. É bem chato ver o ritmo desabar por conta de uma bobagem dessa.

Poderia nos dar um Help?

Ainda em Santa Teresa lembramos do colega Felício, e brincamos; “vamos passar na casa dele”, mas parece que tem ladeira até a casa e isso foi suficiente pra nos fazer mudar de idéia e continuar em frente… chega de morro!

Mas… Pedalar é preciso e após 13h31min35seg e aproximadamente 145 km de chão pedalado chegamos ao acesso que liga Santa Teresa para Santa Leopoldina, é uma estrada de chão batido.

Já pedalei ali umas duas vezes e juro que na minha mente era uma descidona só. São as peças que o cansaço te prega. Lembro-me de ter comentado com o Renato e a Bruna que ali a luz do dia some rapidamente, pois a mata é fechada em volta da estrada e estaríamos praticamente entre as serras.

Dito e feito, de repente a luz some a fomos obrigados a usar as lanternas, e pior, justamente quando a descida começou, nem aproveitamos o embalo, pois a estrada tinha muitas valas e buracos. Faltando alguns quilômetros para Santa Leopoldina uma alma caridosa de carro veio seguindo a gente e ajudando a iluminar a estrada.

Ajuda muito bem vinda. Já em Santa Leopoldina um mini carnaval animava a cidade, nem demos bola, a vontade de concluir era grande e partimos num ritmo bem forte até Barra do Mangaraí, nem sei de onde tiramos força, acho que foi a vontade de comer o melhor Pão de Queijo do estado com um Caldo de Cana geladinho.

Tudo Fechado!

Porémmmm, tava fechado. Então vamos ao Posto Ale, tava fechado também… rs De caldo de cana fomos pra água de torneira mesmo…

Nossa, já era bem tarde e resolvemos juntos não pegar o contorno a noite, seria perigoso demais e além do mais a barreira dos 200 km já havia sido rompida. Arriscar passar por Queimado naquela hora para chegar a Rodovia seria tolice e muito orgulho bobo de nossa parte.

Ponderamos e decidimos ir pra Serra Sede, e então sermos, como posso dizer… “coletados” pelo Sergio. Tudo em consenso, mais uma vez o psicológico do trio se mostrou intocado, nenhuma discussão ou atrito durante todo o pedal, planejamento seguido a risca até o limite de segurança.

Sentados no chão do posto de gasolina fechado, passando das 23:00, ultimas mariolas, mais um gole d’água e vamos rodar. Chegamos à imponente portaria da sede das Fazendas Reunidas Santa Rosa e o que aconteceu? Estava fechada!

Tivemos que chamar o caseiro e fomos atendidos pela gentil Sra. Maria Aparecida, que nos deu passagem, água geladinha e ofereceu uns filhotinhos de bichanos pra gente levar pra casa. Alma caridosa!

Sem Sinal de Celular

A sim, to esquecendo de contar que desde Sta. Leopoldina o celular não pegava, nem em Mangaraí, nem na Fazenda. O celular da fazenda também não estava funcionando. Solução, tentar usar o telefone de Aroaba, era tudo ou nada pois tínhamos que passar a nossa localização.

Cruzamos a fazenda e chegando a Aroaba, os seguranças um pouco ressabiados. Vieram nos atender e não é que ficaram sensibilizados com a carinha de criança da Bruna e do Renato? rsrs

Usamos o telefone deles e marcamos com o Sérgio no posto Ale, voltamos a cruzar a fazenda, pra cruzar a linha da EFVM antes de um trem de minério foi a emoção derradeira.

Pulando mais porteiras

Pula porteira, passa as bikes, e novamente sentamos no chão do posto, fizemos amizade com um vira latas que nos distraiu.

Começamos a imaginar o que fazer assim que chegar em casa. Renato e Bruna falavam de uma pizza, meia brasileira, meia portuguesa eu acho. Com coca-cola, é claro. Eu já tava querendo arroz e feijão mesmo, mas aceitava qualquer coisa.

Rapidinho chegou nosso salvador, que riu um pouco do nosso estado, mas nos resgatou com muita boa vontade.

O GPS marcou 3.875m de ganho de elevação, porém a bateria acabou antes do final do pedal. Sendo assim isso deu um pouco mais. Gerei um total de 8.118 kilojoules, acho que dava pra ligar uma torradeira.

Renatinho subindo com a coroa do meio deve ter gerado o dobro, talvez ligar a TV no Globo Esporte com Thiago Leifert, que ele adora… rs

Queria ter tirado mais fotos, porém o pedal foi corrido e não deu pra registrar muita coisa bacana.

Numeros do Peda

Inicio: 05h25min de 09 de fev 2013

Final: 00h30min de 10 de fev 2013

Inicio: 05h25min de 09 de fev 2013

Final: 00h30min de 10 de fev 2013

Velocidade máxima: 66km/h

Velocidade média: 16.7km/h

Calorias queimadas: 7720

Frequência cardíaca média: 119

Frequência cardíaca máxima: 172

Ritmo médio: 3.29 min/km

Ritmo máximo: 00:57 min/km

Cadência média: 65

Cadência máxima: 108

Potência média de 224 watts

Distância total: 205.60k

Edu Cara de Barro
200k+ seguidores nas redes
+2.100 conteúdos
18Mil Assinantes de e-mail
Edu Cara de Barro

Um pouco cansado disso... Não das histórias, da vivência e do esporte. Mas do que o mercado se tornou. Sigo firme em meu proposito de "Criar Histórias e Experiências Positivas com a Bike" como um ciclista, escritor e desgourmetizador de pedal.