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Gravel Diverge 2021 Specialized. Pedal de 230km até Regência

Começamos os testes longos com a nova Gravel Bike Specialized, a Diverge 2021. O modelo testado é a versão suprema, uma S-Works com pouco mais que 8 quilos!

Antes de começarmos o relato do pedal, em respeito ao seu tempo, devo dizer que este ainda não é o Reviews da Diverge 2021. Caso busque este conteúdo, ele estará aqui em breve. Até lá, pode ver a nossa analise completa da bike em texto e vídeo, é só clicar!

Relato do Pedal: 230km até Regência com a Gravel Diverge 2021

Eu tinha um certo gostinho de revanche com esse trecho que liga Barra Nova do Riacho à Regência, essa história começou naquele meu bikepacking desastroso (mas foi o melhor pedal da minha vida) ainda com a versão 2019 da gravel Diverge Specialized.

Na ocasião, entrei na Reserva Indígena de Combois com a esperança de que algum índio, talvez me atravessasse de canoa com a bicicleta. Já fiz isso antes, de boa! Mas não naquele dia!

Não haviam índios ou pescadores no dia, e o meu impeto de explorador me fez seguir as dicas a cerca de uma suposta trilha que me levaria por uma rota nova até Regência. Essa dica foi passada pelo mesmo cara que se recusou a me atravessar de barco. Eu sei, vocês devem estar pensando: ele não alterou os planos e seguiu a dica de um desconhecido… Pois bem! rs

  • Vá por essa trilha, disse ele! - Você também sai em Regência por ela, completou.

…me lasquei!

Mas isso é passado, e tá registrado na memória e em vídeo, se quiser ver também, da um clique aqui, garanto que vale muito a pena, esse pedal foi memorável.

De Serra a Regência pedalando com a Diverge 2021

A ideia original deste pedal era sair de Serra e seguir pelas estradas de chão até a Rodovia ES-261, conforme a rota abaixo. Alias, a rota está aberta e você pode fazer download ai no meu Strava.

Depois, pegaríamos um pequeno trecho de asfalto até Santa Rosa, para então voltarmos ao estradão e ao legitimo gravel (estrada de cascalho).

Mas esqueçamos os planos, na hora da saída o céu despencou em chuva, eu e meu parceiro nesta jornada, meu amigo Jorge “Meu Sonho” não negamos a missão. Porém, alteramos os planos e seguimos debaixo de chuva pelo litoral.

Dessa forma, o pedal ficou com 40% asfalto e 60% terra. Só para comparação, o original era somente 15% de asfalto com pelo menos 3 tribos indígenas de etnias diferentes pelo caminho. Bem legal, né?

Um pouco mais sobre Regência, o destino deste pedal de gravel bike

Regência é um distrito do município de Linhares, norte do Espírito Santo. Famosa pelas belas praias e pelas ondas fortes, esse local virou point nacional dos surfistas.

O local é bucólico e acolhedor, tem uma atmosfera muito gostosa e uma energia especial. É um daqueles lugares que você se sente em casa e só espera uma rede gostosa pra deitar.

As frondosas castanheiras, deixam cair folhas secas que amaciam o pisar e dão um ar de outono na rua. A sua sombra frondosa é generosa e abranda o calor a sua volta.

Regência, ainda é um daqueles lugares em que os moradores vão para a calçada a noite. A frente das casas, sentados, conversando e proseando que aguardam a brisa noturna que vem do mar, refresque as paredes dos quartos de dormir.

Normal para alguns, elo perdido para outros, os moradores da vila vão levando suas vidas. As vezes intocados por semanas, e acostumados a morar num local de forte sazonalidade.

Um trágico acidente

Infelizmente, em 05 de novembro de 2015 o rompimento da barragem da Companhia Vale do Rio Doce no distrito de Bento Rodrigues em Mariana, trouxe além de muita dor e tristeza, uma grande quantidade de rejeitos de minério e lama para as praias de Regência.

Até hoje, o local sofre com essa sombra, com seus impactos ambientais e econômicos. Uma marca muito profunda, uma ferida na vila que fragilizou a comunidade de diversas maneiras.

Como o ciclismo pode ajudar Regência?

É possível que pequenos movimentos gerem energia suficiente para ajudar a impulsionar um local como Regência? Nos acreditamos que sim!

Antiga torre do Farol. Hoje exposto na pracinha de Regência.

Ao entrarmos pedalando na Vila de Regência Augusta, esse acolhedor local na foz do Rio Doce, nos sentimos como aqueles Cowboys dos filmes de Faroeste.

Aquela rua principal, reta e deserta, quase ninguém na rua e um silencio sepulcral. As bikes eram os cavalos dos mocinhos dos filmes, eu e meu parceiro de pedal lado a lado. As marcas do estradão gravados em nossos rostos e roupas, o pó da estrada, denunciavam que vinhamos de longe.

Só faltam os alforjes e uma trilha sonora, pode ser qualquer uma do Ennio Morricone. Mas pera, não somos mal encarados e é difícil algum biker aventureiro meter medo em alguém. Não adianta botar banca, deixe-me voltar pra realidade.

Na Diverge 2021 o Swat interno ali no down tube, discretamente alojado abaixo do suporte de caramanhola, diminuiu a necessidade de utilização de bolsinhas. Isso deixa os bolsos totalmente livres ou, usados apenas para coisas que sacamos com mais frequência, como comida ou o celular para fotos.

Além disso, nota-se já nos pedais mais curtos o alivio de pressão na lombar. Proporcionado exatamente pela ausência de objetos nas costas.

*E cá para nos, mais do que uma solução de “logística” é também um atributo indireto de conforto dessa bicicleta. Ter as costas leves por uma pedal de 230km não tem preço! *

Na principal rua do vilarejo, entre as acolhedoras casinhas tipicas das vilas de pescadores e as aconchegantes pousadinhas, não pudemos deixar de notar os comerciantes nos olhando. Não eram olhares desconfiados, tão pouco de intimidação.

Tentem imaginar um local, que devastado, tenta se recuperar do desastre. Quando parecia que ressurgiria, surge uma pandemia que limitou demais o turismo. Foram dois golpes fortes nesse lugarejo em muito pouco tempo!

Apesar de mais de 5 anos do desastre de Mariana, a poluição perdura em alguns pontos da praia e da boca do rio. Prejudicando a pesca e o turismo, as principais fontes de renda dos moradores.

De onde são? Pra onde vão?

Moradores cumprimentando com um sorriso e aquela curiosidade típica que precede a pergunta:

  • De onde estão vindo? Perguntam alguns moradores.
  • Estamos vindo de Serra, respondemos. E o tão comum espanto, seguido da retorica que me perdoem, mas pede mais de um sinal de interrogação: - Vieram de Serra pelando??? Perguntam incrédulos.

Atualmente tenho notado este espanto até mesmo em outros ciclistas, em algum momento, as pequenas jornadas descompromissadas se perderam.

Em alguns grupos que participo num aplicativo do meu celular, o que se posta hoje são prints de KOM, RP’s e algumas brincadeiras. Raramente se marcam pedais ou se faz boa e velha resenha. Uma pena!

Os pedais passeios se enfraqueceram diante das disputas palmo a palmo por um segmento virtual? A rota completa e a experiencia do caminho ficaram em segundo plano? Se depender de mim, não!

Do caminho inicial até a chegada na Vila Augusta de Regência, deixamos muitos outros rastros além das marcas dos pneus. Compramos água, paçoca, mariola e tomamos café com queijo quente na acolhedora padaria da Barra.

Em Regência, compramos mais água num pequeno barzinho, e tomamos um Coca-cola geladinha. Depois, almoçamos um farto PF (prato feito) que chegou fresquinho e gostoso, essa prato custou R$ 15,00 e a conta toda não passou de R$ 50,00 para dois num belo restaurante, se querem saber.

Da pra dizer que cada um deixou mais de R$ 40,00 desde o inicio do caminho. Em Regência, ficamos pouco mais de 45 minutos e o valor gasto deve superar a média dos turistas se considerado a permanência no local, compreendem?

Além disso, o vídeo deste pedal gerou muito interesse e a rota até lá já foi baixada mais de 35 vezes. Já estamos armando um grupo maior para voltarmos, mas dessa vez pernoitando.

Achamos uma pousada encantadora por R$ 75,00 a diária, isso mesmo. Ventilador, café da manhã, chuveiro quentinho e super aconchegante. Dai me pergunto, onde está o espírito aventureiro dos ciclistas, pra falar a verdade, um pedal assim é muito mais fácil hoje do que a 10 anos atrás, mas eles parecem que acabaram.

A gravel bike pode resgatar o espírito aventureiro?

Vejo o fortalecimento da Gravel Bike associado a um resgate do espírito aventureiro que estava adormecido em vários ciclistas. As adventures bikes, forma como a Specialized também chama as bikes de gravel tem apontado não um caminho novo, mas sim, um despertar.

Concluindo, é dessa forma que acredito que o ciclismo pode contribuir para o ressurgimento de Regência. Com visitas, com fotos, com passeios e naturalmente consumindo algo no local, que seja uma ou duas garrafinhas d’água. Acredito de verdade, o ciclismo é muito mais que só um esporte!

Sobre o caminho até Regência

Se seguir pelo município de Serra indo por dentro das estradas rurais até Santa Rosa, o ciclista vai pegar um pouco de ladeiras, mas acredito que para um iniciante, apenas duas delas sejam problema, entretanto são curtinhas.

Depois de Santa Rosa, distrito de Aracruz, só encontrará mais uma ladeira na chegada a sede de Aracruz. Depois disso, é só o mais puro e plano estradão!

Indo pelo litoral, ai sim, a maior ladeira não esconde nem um fusca por de trás. É predominantemente plano, e indiscutivelmente o visual pelo litoral e as opções de paradas são infinitamente maiores.

E ainda, pelo litoral, caso você “toque o sino” ou aconteça algum imprevisto é mais fácil pedir resgate da família. Da até pra tomar uma água de coco enquanto espera o resgate.

Nos dois casos, o ciclista precisará romper a barreira dos 100 quilômetros só na ida, por tanto, para iniciantes, recomendo o passeio pelo litoral.

Não me perguntem o porque, mas depois de Vila Nova do Riacho, algo aconteceu com a estrada e os gigantes bancos de areia sumiram, numa gravel bike como a Diverge, fica fácil estabelecer uma velocidade de cruzeiro de 25km/h sem forçar nadinha.

A Gravel Bike Diverge no caminho até Regência

Não me canso de falar, a gravel é a rainha do estradão, e não é só pela velocidade de cruzeiro e pela facilidade de manutenção desta velocidade. A gravel é confortável e rápida, no caso da Diverge do teste, a versão S-Works ainda é incrivelmente leve.

Mas não nos apoiemos nisso, pois na versão anterior eu coloquei mais de 40km/h nessa estrada, e com bagagem. A culpa foi do medo de ficar no escuro devido a falha da lanterna (apenas um dos muitos perrengues desta viagem, assistam! rs).

A versão 2.0 do Future Shock é de longe um dos pontos fortes da bicicleta, poder ajustar o amortecedor com a bike em movimento, e num sistema mais a mão do que este impossível!

Nessa viagem, ainda usei as rodas CLX Terra Carbon com câmara de ar, pressão acertada nos pneus e a coisa simplesmente flui. Não foi neste pedal para Regência, mas em outras oportunidades coloquei essa bike andando forte na trilha, e posso afirmar que não senti torção das rodas ou deformidades nas frenagens fortes.

A Roval CLX Terra que equipa a Diverge S-Works não é uma roda adaptada, é na verdade uma roda para terra, para o cascalho. Por tanto pode ficar tranquilo, pois ela é quase, ou tão forte quanto uma Roval para mountain bike.

Além disso, sua capacidade de absorção das imperfeições amplifica o prazer da pedalada em baixa velocidade. Já estou usando com tubeless agora, o conforto, grip e tração são absolutamente diferentes.

Curioso, enquanto cortávamos suavemente o estradão, hora batendo papo, hora ficando calados. Estávamos calmos, e olhávamos para todos os lados pra não perder a experiencia de curtir o caminho.

As margens da estrada, os parcos rastros de carros, as pombas revoando junto aos papa-capins e ao fundo, quase deixamos passar o som das folhas agitadas pelo vento.

Me volto para a copa das arvores, vocês sabem que eu gosto disso, essa estrada é perfeita para isso. Sem carros, sem pessoas, sem barulho… Até o som dos macaquinhos do frehub trabalhando quebram essa sinergia quando a perna para de trabalhar no pedivela. Rapidamente ele some, e a imersão recomeça.

Como é possível, não estamos tão longe da BR 101, a rodovia que corta todo nosso litoral brasileiro, e ainda assim, tão isolados. De repente, uma moto, muito ao longe, tão ao longe que parecia parada.

Ela vinha de encontro a nos naquele túnel formado pelo retão do estradão e pelos gigantes eucaliptos, demorou a cruzar conosco. Aquela acenada de cabeça, retribuída com uma buzina. E seguiu-se mais algum bom tempo ser vermos outra pessoa.

A Gravel Diverge 2021 está mais rápida, diria que bem mais rápida que sua antecessora. Quebrar a inércia é muito mais fácil e a coisa toda flui muito suavemente. A posição de pilotagem é mais aero, sem sombra de duvidas, contudo, não tanto a ponto de comprometer o espírito da bike e o estilo característico de uma gravel bike.

A Specialized Diverge 2021 continua uma aventureira, só que agora mais jovial e arisca.

Edu Costa

Todos os terrenos com a Gravel Bike Diverge Specialized 2021

Até pegamos dois singletracks, mas bem curtinhos. De resto, foi uma alternância constante de terrenos com o mesmo sapato (pneu). Tenho dito com frequência, os pneus são o coração da gravel bike, e isso nunca foi tão verdadeiro numa bicicleta.

…os pneus são o coração da gravel bike

Edu Costa

Porque eu digo isso? Por que depois que acertar a calibragem dos pneus da sua gravel, já era, você terá verdadeiramente uma bike para todos os terrenos.

Mostro isso no meu vídeo ” Os terrenos que você pode enfrentar com uma gravel no mesmo pedal!”

Com os pneus bem ajustados, seja com camara de ar ou tubless, que alias eu recomendo, você pode transitar entre os pisos sem precisar calibrar a cada mudança.

É claro, se for fazer um pedal 100% asfalto, vale a pena uma calibragem mais adequada, fora isso, diria que deixe-a mais flexivel. Afinal, numa Gravel Bike como a Diverge, você nunca sabe exatamente onde vai parar.

Edu Cara de Barro
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Edu Cara de Barro

Um pouco cansado disso... Não das histórias, da vivência e do esporte. Mas do que o mercado se tornou. Sigo firme em meu proposito de "Criar Histórias e Experiências Positivas com a Bike" como um ciclista, escritor e desgourmetizador de pedal.