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Mobilidade Urbana, Gentileza gerando gentileza, Leis de Transito e ciclistas do dia a dia Parte - 2

Mobilidade Urbana. Continuando com minha a minha humilde opinião sobre mobilidade urbana e sua abrangência, seguem algumas reflexões. “Lei não se discute, lei se cumpre” - Joaquim Barbosa. Link da primeira parte do texto aqui.  

Certamente o que ministro Joaquim Barbosa quis dizer com essa celebre frase repetida por juristas, advogados e por tantas outras pessoas é que as leis estão ai par serem cumpridas. Ponto. Mas certamente ele entende que elas podem ser debatidas a fim de que ocorram aprimoramentos, ajustes e adequações a realidade mutável e variável de qualquer sociedade.  

Trazendo isso para a temática proposta vamos inevitavelmente falar sobre o Código Nacional de Trânsito, que muito mais do que regular o vai e vem dos carros, tenta andar ao lado da mobilidade urbana, que como disse antes trata também do bem estar da população e a distribuição dos espaços.

Dito isso, e com um olhar mais atento vai ficando mais estranho imaginar que precisamos de leis para nos dizer que: jogar papel no chão é errado, roubar e matar é errado e que jogar deliberadamente um carro de mais de uma tonelada sobre uma bike ou pedestre é uma grande covardia. Ao mesmo tempo nem quero imaginar o quão pior seria sem as convenções sociais e as leis.

Vou falar apenas sobre alguns trechos que sempre estão em voga para que a leitura não se torne chata, porém qualquer um pode ter acesso ao Código de Trânsito Nacional. Alias recomendo mesmo, pois, conhecer nossos direitos e deveres fortalece a sociedade e garantem a democracia. Entender nossos direitos assegura o respeito e a justiça a todos.  

Pesquisando um pouco na internet você já consegue se informar razoavelmente bem, existem portais oficiais do governo, muitos sites e blogs debatendo o tema. Por mera liberalidade não vou seguir uma ordem exata dos artigos e também não é a intenção citá-los aqui. A ideia é expor opiniões e deixar o espaço aberto para contribuições que sejam construtivas.

Sério? Não posso fechar um ciclista?

Falando assim parece brincadeira, mas o assunto é sério e é uma das infrações mais comuns. Muitos motoristas acham que o fato de ter dado seta lhe confere o direito de convergir ou parar o carro sem se importar com quem vem atrás ou adiante.  

O sinal luminoso ou de seta, como é comum chamá-lo nada mais é do que o que o próprio nome já diz, um sinal. E por tanto tem a função de sinalizar a intenção do condutor, assim como os sinais de mão dos ciclistas ou a extensão de braço do pedestre numa faixa.

Sendo assim, isso também vale para quem está numa bike. Além de sinalizar, confira se o caminho esta livre, se o motorista viu o sinal e ainda se não vai dar uma fechada em alguém.

De olho nos sinais

Pedestres e sobre tudo ciclistas, fiquem atentos a estes sinais. Ao pedalar atrás de um carro sempre fique “ligado”. Ao ver a seta reduza um pouquinho e facilite a conversão do veiculo, nunca tente acelerar para ultrapassar achando que da tempo, não force, pois além dos chamados pontos cegos dos veículos – que os motociclistas conhecem bem, o motorista pode estar simplesmente “nem ai” pra você e te fechar mesmo. Ou pior, fazer isso sem dar seta.

Art. 38. Antes de entrar à direita ou à esquerda, em outra via ou em lotes lindeiros, o condutor deverá:… Parágrafo único. Durante a manobra de mudança de direção, o condutor deverá ceder passagem aos pedestres e ciclistas, aos veículos que transitem em sentido contrário pela pista da via da qual vai sair, respeitadas as normas de preferência de passagem.

Sentir na própria pele

O parágrafo 2º me chama a atenção pelo seguinte. Passei a respeitar ainda mais os motociclistas depois que comecei a andar de moto, isso à quase 20 anos atrás. Nessa época ainda não se falava tanto no Brasil em ciclo ativismo e direção defensiva, nem mesmo este código de trânsito atual existia.

Uma curiosidade, capacetes nem eram obrigatórios. Era muito mais tenso andar de moto, você era fechado, xingado, desrespeitado, tiravam fina e o escambau. Imagino que a galera que anda de bike está se identificando, certo? Sim, tem tudo haver, quem pedala por ai hoje em dia passa por tudo isso.  

Outro dia um motociclista me tirou uma fina e apontou para a calçada. Acho que ele quis dizer que eu deveria estar ali e não na rua. A pergunta: Como ele reagiria se mais a frente tomasse uma fechada de um carro? Será que se sentiria desrespeitado, vulnerável e ficaria indignado? Se ele não respeita um ciclista, como ele pode esperar ser respeitado por um motorista? Fiquei um pouco chateado, pois esperava um pouco mais de sensibilidade de quem vez ou outra também toma fechadas por ai.  

Por isso ciclista, respeite a faixa de pedestres e as pessoas caminhando. Bike na calçada, só se for empurrando à magrela. Motoristas zelem pelos pedestres, ciclistas e motociclistas. Trocando em miúdos o Artigo 29: O mais forte zela pelo mais fraco.  Art. 29. O trânsito de veículos nas vias terrestres abertas à circulação obedecerá às seguintes normas: … § 2º Respeitadas as normas de circulação e conduta estabelecidas neste artigo, em ordem decrescente, os veículos de maior porte serão sempre responsáveis pela segurança dos menores, os motorizados pelos não motorizados e, juntos, pela incolumidade dos pedestres.  

Tirar uma fina. A campeã isolada no desrespeito a vida dos pedestres, ciclistas e motociclistas creio eu. Um ato de intimidação tão inconsequente quanto bobo e maldoso. Sempre praticado por apressadinhos e por pessoas que adoram tirar uma raspinha de alguém porque acham que a rua é só dos carros.  

Esteja o ciclista ocupando uma faixa ou no canto da pista, não importa. É claro, existem aquelas finas causadas por descuidos ou distrações, nem todo motorista que tira uma fina é um imbecil, mas mesmo assim não há como abrir concessões, proposital ou não, uma infração leva a outra.  

Dizem que o brasileiro só aprende quando é penalizado no bolso, até concordo em partes, mas a impunidade impera e realmente não vejo fiscalização especifica para esse fim, até porque mesmo algumas autoridades desconhecem esses temas.

Também deve ser complicado levar uma infração assim a uma autoridade. Se você passou por isso e tem provas ou testemunhas não deixe de fazer um B.O. É rapidinho e não precisa ser feito na hora, só não deixe de fazer.  

Art. 201. Deixar de guardar a distância lateral de um metro e cinqüenta centímetros ao passar ou ultrapassar bicicleta:

Infração – média;

Penalidade – multa.   A verdade é que não me sinto seguro em exercer alguns direitos que tenho quando estou pedalando, muita gente pouco se importa com o semelhante, principalmente se este se encontra numa posição “inferior” ou seja, de bike ou a pé

A rotina das cidades deixou muito pouco de cordialidade nas pessoas. Muitas vezes um cara que é gente fina no dia a dia, por estar atrasado ou estressado pode transformar seu veículo numa arma.

Mais atual do que nunca!

Por isso mesmo eu adotei uma postura defensiva ao pedalar em zona urbana, mesmo tendo o direito de pedalar ocupando uma faixa em alguns locais eu tendo a me posicionar mais ao canto da via, já em outras eu ocupo a faixa.  

Art. 58. Nas vias urbanas e nas rurais de pista dupla, a circulação de bicicletas deverá ocorrer, quando não houver ciclovia, ciclofaixa, ou acostamento, ou quando não for possível a utilização destes, nos bordos da pista de rolamento, no mesmo sentido de circulação regulamentado para a via, com preferência sobre os veículos automotores.  

Muita gente experiente diria que essa não é a conduta mais indicada eu sei, mas é difícil explicar o porquê dessa minha postura seletiva nos meus hábitos ao pedalar. Isso porque cada rua que passo em minha rotina tem uma particularidade.  

Ao contrario do que muita gente pode imaginar, em vias estreitas eu ocupo a faixa, acho que assim inibo uma passagem forçada e evito ser espremido nos carros estacionados, nesses momentos eu aperto o passo e aumento a velocidade para ajudar um pouco na fluidez e não passar uma sensação de deboche, se me entendem?  

Já nas vias largas, duplas e com velocidade média dos carros mais elevada eu sigo mais pelo canto, pois um motorista num rápido momento de distração pode ter dificuldade em desviar de mim e até se chocar com um carro ao lado ou espremer um motoboy no corredor, uma freada brusca também pode causar colisões. Acho que o motorista passa o carro branco e depois tentar ultrapassar o ônibus pela direita, em seguida atropelou o ciclista e tenta fugir.  

Se interpretei bem é isso, mas notem que antes disso alguns motoristas desviam com certo susto e outros são obrigados a frear mais forte e era isso que gostaria de demonstrar agora. Reforçando que o ciclista está pedalando de forma correta, dentro das normas. A reflexão que sugiro é: será que esta é a forma mais segura de se pedalar em vias rápidas?  

Para esse tipo de motorista que atropela e foge, pouco importa se temos ou não uma lei que protege os ciclistas. E é esse tipo que quero evitar.  

Como não tenho grande experiência em pedais urbanos, disse no inicio que iria dar uma humilde opinião, essa não é minha praia. Sinto-me muito mais a vontade passeando ou treinando na zona rural. Porém em alguns treinos e quando posso ir ao trabalho de bike inevitavelmente preciso transitar em vias urbanas. Por isso considero que desenvolver “técnicas” e hábitos defensivos irão te ajudar muito mais do que seguir a lei a risca.

Digo isso sem medo, pois conheço poucos ciclistas que seguem a risca o que diz o artigo 105   Art. 105 … VI - para as bicicletas, a campainha, sinalização noturna dianteira, traseira, lateral e nos pedais, e espelho retrovisor do lado esquerdo.  

Nem a pau que eu coloco um retrovisor na minha bike… hehehe   Como podem perceber, mesmo deixando muita coisa de fora já da pra perceber que o Código de Transito é bem abrangente e delimita bem a conduta de todos. Porém como é comum no Brasil, nossos gestores criam coisas, regras e leis e depois deixam tudo solto ou se eximem de responsabilidades.  

Temos agora uma lei que obriga pais a matricularem crianças a partir de 4 anos de idade em escolas (lei número 12.796). Legal, né? Mas antes da lei já não deveríamos ter as tais escolas especializadas em cuidar e educar de crianças com essa idade? Pois é, mas não temos.  

Agora todos os motociclistas são obrigados por questão de segurança a tirarem o capacete nos postos de gasolina e estabelecimentos comerciais por questões de segurança (lei número 14.955 SP). Legal, né? Agora me diga: quem está indo para assaltar vai tirar o capacete? Vocês acreditam nisso? Quem está mal intencionado deve até dar risada. E outra, todo motociclista é assaltante?  

Todos se lembram da lei que tornou obrigatório o uso das cadeirinhas para transportar crianças nos carros. Acho que ninguém discute a importância e a validade dessa medida. O problema é que não houve tempo para a compra do equipamento.

Praticamente não existia em quantidade ideal no mercado para atender a todos, e nem havia um padrão para as disponíveis. Começou uma corrida, as pessoas compraram cadeirinhas por valores de até R$ 800,00. Hoje o mesmo modelo custa R$ 200,00.  

Com esses exemplos, quero demonstrar que o governo não faz sua parte do dever de casa. A lei ta ai, mas onde estão as campanhas de conscientização, as ciclovias, ciclofaixas e placas de sinalização?  

Quem já viu uma fiscalização numa ciclofaixa a fim de educar ou punir motoristas infratores? Não seria essa a contra partida do governo?   Sinto que leis e normas foram feitas e a obrigação de cuidar, educar e fiscalizar caiu nas costas dos ciclistas. Que hoje filmam, escrevem e comentam em redes sociais a aventura que é pedalar numa zona urbana. Reclamar e gritar parece ser apenas o que resta a fazer, mas até quando terão forças? É triste dependermos de iniciativas voluntárias para expor e trazer a tona o atual estado da nossa mobilidade urbana.  

Assim que sobrar mais um tempo falo sobre os ciclistas do dia a dia e explicar gosto de chama-los assim. E como tudo já falado impacta na vida de todos nos que usamos a bike como esporte, lazer ou transporte.

Edu Cara de Barro
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Edu Cara de Barro

Um pouco cansado disso... Não das histórias, da vivência e do esporte. Mas do que o mercado se tornou. Sigo firme em meu proposito de "Criar Histórias e Experiências Positivas com a Bike" como um ciclista, escritor e desgourmetizador de pedal.