Strava. Porque Algumas Pessoas Ainda Não Usam?
Strava, gadgets e apps. Sempre me liguei nessas inovações e sou abertamente fã de redes sociais, mesmo não sendo um “postador” compulsivo.
O Strava é a maior rede social dedicada aos esportes do mundo, com toda certeza. Mas porque então ainda existem tantas pessoas que resistem aos seus encantos e se negam a aderir? Uns simplesmente odeiam e outros se quer dão a minima.
Quando vi Strava pela primeira vez pensei “nossa, que massa! ”
Uso essa ferramenta em todos meus passeios e treinos de bicicleta, pois ela já está integrada ao meu Garmin Edge 510 e assim que chego em casa já “passo o treino” através da conexão bluetooth.
Até ai tudo normal, acho que é assim que a maioria também usa. Ou pelo App através dos smartphones ou via dispositivos de GPS.
Também traço algumas rotas pelo Strava e uso para conhecer novas trilhas e locais para pedalar. Principalmente no Mountain bike.
Mas será que é todo mundo usa mesmo?
Sem Strava. Na Contra Mão, Mas Feliz
Conheço um cara. Um senhor que já pedalava muito antes de eu terminar de sujar as fraldas. Ele também é entusiasta do esporte e um apaixonado pelo ciclismo.
Antes que digam: “alguns coroas não gostam dessas coisas”, já vou logo explicando. Ele também é fã de tecnologia, usa Smartphone, gosta de cinema e até tem multimídia no carro. Tem Facebook e instagram. Pra vocês verem como aqui o problema não é tecnologia.
Ele tem uma bicicleta mountain bike Trek com um raríssimo quadro de cromo-molibdênio – equivalente ao adamantium dos quadros. Essa bike deve ter pra lá de 20 anos se bobear.
Tem também uma speed de carbono toda Ultegra, rodas Mavic e fitas de guidão Supacaz. Pouca coisa não.
Pois bem, quando vejo seus relatos e escuto suas histórias sobre suas jornadas eu digo:
- Poste isso no Strava man!
E ele diz – Que mané Strava, o que!
-
Não vai usar Strava? Pergunto
-
Não, jamais. Pra que?
Admito que no começo pensava que ele seria só mais um a se dobrar. Que mais cedo ou mais tarde criaria uma conta no Strava. Pensava não, eu tinha certeza.
Mas acontece que os anos já se vão e ele continua pedalando na sua bicicleta absolutamente invisível em seus passeios e treinos.
Praticamente um anônimo, que só é notado quando se topa com ele pela estrada.
Já foi em algumas poucas provas, mas a pelo menos 10 anos que isso não ocorre. Não, não é antissocial, pelo contrário, bem extrovertido e conversador.
Ora, se ele está tão conectado e também curte pedalar, porque será que ainda não uso o Strava ou qualquer outro aplicativo de ciclismo? Sinceramente nunca perguntei diretamente isso para ele, mas tenho algumas suposições.
Antes de dizer o que imagino ser o motivo, preciso dar minha opinião do que é o Strava para mim.
O Que é o Strava em Minha Opinião?
O Strava é uma plataforma de armazenamento e acompanhamento de atividades, ele permite que seus usuários registrem seus treinos com muita riqueza de detalhes. Porém, se fosse só isso, seria só mais um. Acima disso, é uma grande Rede Social
Se um usuário do Strava dispõe de um moderno sistema de GPS como a linha Edge da Garmin com medidores de Cadencia e Cinta de FC, ou mesmo os relógios Forerunner ele pode ter dados ainda mais ricos.
O sistema é muito democrático, ainda funciona através de aplicativos instalados nos celulares. Também existe a possibilidade de instalar o medidor de cadencia e FC nos smartphones.
Recentemente fiz um post aqui sobre os Smartwatchs da Apple e do Android, que ligados ao Strava agora permitem que os ciclistas ou corredores deixem os celulares em casa inclusive.
Strava. Uma Grande e Democrática Rede Social dos Esportes
Ao contrário de outras plataformas, Strava permite que os usuários das contas gratuitas desfrutem de um grande volume de recursos.
Na verdade, ser um usuário Premium não confere muitas vantagens aos que optam por este pacote. Sendo assim, não há distinção ou vantagens significativas e isso permitiu a criação de uma rede de usuários mais homogenia, democrática e livre.
Haviam outras plataformas no mercado antes da chegada do Strava, citando aqui TrackMy Route, Runtastic, Mpamyride e outros. Mas o que fez com que o Strava se tornasse uma febre entre corredores de rua e ciclistas?
A Principal Diferença em Relação as Outras Plataformas
Strava é uma poderosa plataforma social, bem organizada e como já falado, democrática.
Foi o primeiro sistema a promover a disseminação e compartilhamento em massa das atividades com um design agradável. Todos se conectam e é possível fazer comentários elogiando, incentivando e as vezes até zoando alguns amigos.
Ou ainda dar apenas um Kudos - o joinha do Strava - nas atividades daqueles que o usuário escolhe seguir.
Imagine, nunca antes foi possível seguir grandes ícones do esporte. Eu sigo “os caras” do Mountain bike mundial e do ciclismo de estrada, vejo os treinos deles. Distancia, altimetria, velocidade média, tempo, cadencia e até frequência média do coração dos atletas.
Certo, provavelmente eles não postam todos os treinos, entendo isso. Mas ainda assim não é fantástico? Poder dar um joinha na atividade no Nino Schurter, Michal Kwiatkowski ou Florian Vogel tão logo ele termine um treino? Eu acho demais!
Dica
Para saber se um Strava é mesmo de um Atleta profissional é só olhar o nome “pros” no link. Os amadores tem athletes.
- Nino Schurter - https://www.strava.com/pros/663394
- Edu Costa “este peba” que escreve o texto - https://www.strava.com/athletes/636498
Vejo na plataforma um comportamento que não vi nas suas concorrentes. Uma velocidade muito grande em se adaptar e atrelar ao seu serviço mais conexões com outras redes sociais poderosas como Facebook, Instagram, Google+ e até Garmin Conect.
A última delas foi uma alteração no seu Feed de Notícias que eu já antecipei aqui no post Novos Clubes do Strava.
Então Qual é o problema?
Não chega a ser exatamente um problema, mas aconteceu que o Strava produziu um grande contexto social associado aos treinos hard-core, até mesmo para boa parte daqueles usuários mais “pacatos”.
Os valores culturais associados à concorrência ficaram um pouco destorcidos. Parece que essa nossa geração Strava se vê obrigado a “brutalizar” sempre. Haja vista que os treinos estão sempre expostos na dashboard que virou uma vitrine.
Tudo isso se evidencia nas corridas de rua e no ciclismo transformando as atividades de lazer baseadas no esporte em verdadeiras competições não tão veladas.
Se por acaso você ainda não conhece profundamente o feed do Strava, saiba que as atividades dos usuários são absolutamente comparáveis.
Se seu Strava é Premiun você pode inclusive segmentar isso por gênero, idade e até pelo peso.
A Batalha Para Ser o Rei
As ruas das cidades, as rodovias, as trilhas e os estradões foram divididos em segmentos e os mais valiosos são as subidas.
Um usuário pode comparar como eles têm performado num determinado trecho em relação a si mesmo, ou sobre outros usuários que por ventura tenham passado neste ponto com seu Strava ligado.
Os mais velozes e hábeis nestes segmentos recebem o “titulo” KOM (King of Mountain – Rei da Montanha) para os meninos e QOM (Queem Of Mountain – Rainha da Montanha) para as meninas.
Esse título é claro, dura apenas até que outro venha e supere o tempo, e as disputas são ferozes. Um KOM vale muito, vale até voltar a se comportar feito menino e muitas vezes parecer criança “correndo atrás de pipa”. Um risco!
A Coisa Pode Ficar Bem Séria
A coisa pode ficar bem séria, ao ponto do Strava deletar segmentos em alguns trechos de descidas urbanas nos Estados Unidos depois que acidentes graves e até mortes levaram a uma série de reclamações e processos contra a empresa.
Entusiastas não veem problemas nisso, acham que é uma característica comum e inerente da atividade praticada. Ok, concordo em partes, mas alto lá, soltar os freios esteja onde estiver sempre vai ter consequências.
Cabe a cada um pesá-las racionalmente, pois sabemos que se você deixar a tarefa de frear a bicicleta por conta da adrenalina isso quase sempre falha.
Claro que conquistar e manter um KOM ou QOM é muito bom, realmente é uma sensação muito bacana. Não seria hipócrita de dizer que não gosto, e muito menos dizer que não ligo quando recebo uma mensagem no celular.
“Fulano de Tal acaba de tomar o seu KOM em…”
Cara, essa mensagem mata o dia de qualquer um… (risos!)
Vejo que no ciclismo de estrada e no mountain bike XCM ou XCO essas disputas são mais, digamos… acirradas. Posso estar enganado, mas no MTB Enduro/All Mountain e entre os corredores de rua não vejo tanto disso.
Parece que essa turma está ligada em outra vibe, apesar de serem em grande número e também gostarem muito de usar o Strava.
Lembra daquele meu amigo lá do começo do texto?
Pois é, depois de mais uma vez falar pra ele sobre o Strava e de pensar que estava quase convencendo-o a testar nos vimos entre uma discussão de três amigos sobre treinos postados.
O tema era quase esse: Meu treino foi mais duro que o seu.
Você não imagina a minha vergonha, os três caras com telefone na mão abrindo sequencias de treinos e comparando entre eles.
Altimetria, distancia, velocidade média e tempo total. Até que um, sendo usuário Premiun foi para os números do Suffer Score… apelão!
Algumas pessoas postam treinos e até fazem coisas sem sentido apenas para terem uma atividade no feed mais dura “que a sua”, quando na verdade talvez fosse mais importante ter ali o treino mais duro “dela”, me entendem?
O feed é algo tão efêmero (risos!), ainda mais se você tem muitos seguidores e se estes seguidores seguem ainda mais pessoas. Ou seja, basta uma atualização neste feed para que seu mega sofrimento simplesmente desapareça sem que ninguém veja.
Por isso que digo, faça pra você. Dessa forma ele nunca se apagará.
É exatamente por isso que esse meu amigo quer distância, essa disputa tola e muitas vezes sem proposito. Sorte nossa ainda que serviços podres como EPO Digital saíram do ar. Falo disso em dois outros posts.
EPO Digital no Strava e Como Saber se Alguem Pegou seu KOM Usando EPO Digital
Aqui no Espírito Santo temos algumas disputas bem interessantes, como o anual Desafio Panda. Nesse período, sim, uma disputa declarada e organizada. Onde vencerá aquele ciclista que percorrer a maior distância num determinado tempo.
Por mais de uma vez vimos ciclistas percorrem mais de 500km num único pedal. Isso é épico, é marcante, é motivador e acima de tudo foi oportuno.
Não tenho birra contra os treinos brutos, e sim contra o sofrimento sem proposito ou por motivo vão ou fútil.
Um Nicho de Rede Social?
A plataforma se assemelha muito a uma rede social comum, contudo, penso que só existam nela em sua imensa maioria membros que pratiquem um dos esportes suportados pelo sistema.
Um ou outro está ali para acompanhar um ídolo, é um jornalista esportivo ou algo assim talvez. De fato, não vejo muito sentido para ser um membro se não nos casos citados acima.
Talvez não possamos chamar de micro nicho porque não é uma das grandes redes sociais explorando uma parcela especifica do seu público.
Certamente me sinto mais à vontade em classifica-la como uma rede social direcionada a praticantes de atividades físicas e que por sua vez se segmenta entre as várias modalidades suportadas pelo sistema.
Do Virtual para o Real. E Suando Muito!
Que outra rede social tirou as pessoas do virtual e promoveu encontros reais com tanta eficiência como o Strava?
Igualmente como Facebook, em que você pode fazer amizades virtuais, porém no Strava os encontros reais são bem mais possíveis. Os Clubes formados ali não raramente promovem estes encontros entre seus membros.
Passeios de bicicleta ou longões de corrida são organizados para os finais de semana por exemplo, e o que antes era um avatar, agora à sua frente é uma pessoa real. Você tornará a encontra-lo no virtual mais tarde assim que o passeio for postado. Louco isso, não?
Strava quebrou a ideia de que todas as redes sociais distanciam as pessoas. Curiosamente ela as aproxima através das atividades e afinidades e sobre tudo competição. Um fenômeno sócio cultural que claramente ficará mais evidente a frente.
Podemos dizer que o Strava é a primeira rede social que tira as pessoas da frente do computador e as faz suar a camisa no mundo real.
Estes pontos positivos superam absurdamente aquilo tudo que disse acima, e é por isso que insisto em trazer esse meu amigo old scholl para o Strava.
O tempo de pedalar absolutamente só, e sempre só acabou, infelizmente talvez tenha acabado em alguns lugares. Hoje as rodovias e trilhas estão ficando mais perigosas em vários aspectos, você sabe.
Com a melhoria dos equipamentos os treinos e passeios ficaram mais longos, eu diria. Estamos indo para mais longe de casa agora.
Já falei isso antes e reforço. Fiz excelentes amizades pedalando, e algumas delas graças ao Strava.
Voltando ao Ponto Inicial
Percebo então, porque meu amigo ciclista largamente experiente detesta o Strava. De certa forma ele acha que isso apodera de muito do que ele adquiriu em anos de ralação nas ruas e rodovias.
Imagino quantas vezes ele tentou compartilhar conhecimento e não foi entendido ou ignorado, e agora vê um software fazendo isso meio que sem querer. Sente que tudo isso é modismo e que como tantos outros serviços milagrosos logo vai acabar.
Quase chega a se indignar e é notável a estranheza ao ver marmanjos darem chilique ao perceber que o Strava não está marcando sua viagem. Algumas pessoas consideram que pedalar sem Strava é como não pedalar.
Não vai mais em competições porque é competitivo demais e acha que seu tempo acabou, por outro lado se recusa a entrar numa disputa virtual, por um título virtual num circuito virtual.
E quanto a Mim?
Já disse, adoro redes sociais. Se quer saber quem uma pessoa é de fato, perca dez minutos lendo as publicações dela na timeline do Facebook. Ali geralmente as pessoas lhe passam um atestado de como elas são na real, e por escrito.
Com Strava não é diferente, gosto muito e uso praticamente todos os dias. Conheci inúmeras pessoas através da rede - amizades reais e virtuais - e não deixo de brigar por um KOM ou outro as vezes.
Por não ser mais garotão meu ponto forte não são mais as explosões, então me saiu melhor em segmentos longos. As disputas são muito mais pessoais do que entre outros usuários para mim, mas sim, já disse. Fico feliz demais se pego um KOM e pra morrer quando perco um.
Gosto mesmo do Strava, de verdade!